domingo, 19 de maio de 2019
O Nascimento do Prazer (trecho)
O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom – como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos – pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.
( Clarice Lispector ) - (A descoberta do mundo: crónicas – Página 159)
Comp. da pg. de Marcel Oliveira
O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável. Esse fundir-se total é insuportavelmente bom – como se a morte fosse o nosso bem maior e final, só que não é a morte, é a vida incomensurável que chega a se parecer com a grandeza da morte. Deve-se deixar inundar pela alegria aos poucos – pois é a vida nascendo. E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido. Pois o prazer não é de se brincar com ele. Ele é nós.
( Clarice Lispector ) - (A descoberta do mundo: crónicas – Página 159)
Comp. da pg. de Marcel Oliveira
"é preciso que um espírito destemido flerte com o insano a fim de que, ingressando no labirinto do inconsciente, retorne dessa jornada com percepções inusitadas e relevantes sobre a condição humana. Muitas vezes, tal espírito, tentando compreender racionalmente as informações que lhe chegam, literaliza metáforas que, se compreendidas como símbolos e não como realidade fática, apontam para verdades fundamentais."
Esse texto é um fragmento de uma análise de Victor Lisboa sobre Colin Wilson. Achei maravilhosa. Segue abaixo o link para a matéria inteira e creio que somente "outsiders" entenderão.
https://papodehomem.com.br/os-desviantes-voce-e-um-deles?fbclid=IwAR2kx_0ObKdBNPGv0rKYj8tC1rA9Q4py81VFEKlqDNV52OprYYxB6W0zC9Y
sábado, 18 de maio de 2019
"Assim, nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição. Já a infelicidade é muito menos difícil de experimentar. O sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, e que nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a angústia como sinais de advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito, embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes."
Sigmund Freud, O Mal-estar na Civilização.
Comp. do FB, pg. de Jorge Sesarino
Sigmund Freud, O Mal-estar na Civilização.
Comp. do FB, pg. de Jorge Sesarino
Bergon, maravilhoso...
"A ideia do futuro, prenhe de uma infinidade de possíveis, é pois mais fecunda do que o próprio futuro, e é por isso que há mais encanto na esperança do que na posse, no sonho do que na realidade."
Henri Bergson
Porque pra mim pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações.
Jack KEROUAC in: On the Road - Pé na Estrada. - Comp. da pg. Há Luz nas Análises
sexta-feira, 17 de maio de 2019
O que se torna preciso é, no entanto, isto: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo, não encontrar ninguém durante horas - eis o que se deve saber alcançar. Estar sozinho como se estava quando criança, enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que pareciam importantes e grandes porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações.
Rainer Maria RILKE in: Cartas a um jovem poeta.
Da pg. Há Luz nas análises
Rainer Maria RILKE in: Cartas a um jovem poeta.
Da pg. Há Luz nas análises
"O Olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz qual a quantidade de homem há dentro de nós. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências piscam o olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que não há nada que pense no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; o admirável fogo que se compõe da combustão dos pensamentos tímidos. Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só uma só postura, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. (...) Os medíocres deixam-se perder pelo obstáculo momentâneo; não são assim os fortes. Perecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles."
Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo
Comp. de Gigantes da Literatura Universal
Comp. de Gigantes da Literatura Universal
Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-te até adormeceres.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-te até adormeceres.
Maria do Rosário Pedreira, em «O Canto do Vento dos Ciprestes»
Arte - Catherine Yastrebova
Comp. do FB, pg. Sonhar a realidade
quinta-feira, 16 de maio de 2019
A insatisfação pode nos levar para frente ou para trás: reconhecida como inerente ao desejo humano, ela nos leva a buscar objetos substitutos para nos aproximarmos dos nossos objetivos; reconhecida como fato da vida, ela permite trocas, não nos paralisa, não nos escraviza nem escraviza o outro. Não reconhecida, a insatisfação impede o reconhecimento da realidade, exige sempre mais, não aceita trocas, não faz substituições, nos leva à depressão, à impossibilidade de estabelecer laços duradouros, trabalha na contramão da vida. A pessoa que somos nos dá a medida da nossa (in)satisfação.
(Evelin Pestana. Compartilhado da pg. Casa Aberta, Psicanálise, Arte e Educação).
terça-feira, 14 de maio de 2019
Uma instituição chamada "os outros"...
Cem vezes por dia, desdenhamos os nossos próprios defeitos, censurando esses defeitos nos outros.
Michel de Montaigne
segunda-feira, 13 de maio de 2019
domingo, 12 de maio de 2019
FELIZ DIA DAS MÃES !!!
Cada percepção é um nascimento. Somos todos, neste preciso Instante, filhos da nossa grande Mãe, a Sinapse Cósmica. Esse processo, gestação terna e eterna, catalisada dentro de nós, ad infinitum, cria simetrias, cria enlaces, o espaço, o tempo. Cria a Vida. Em cada Olhar, gerado pela faísca divina de grandes beijos cósmicos que acontecem ao toque de toda sensação, somos nutridos em alma, pelo cordão umbilical da cristalização do entendimento, da busca, da cria de rebentos de sentidos a cada instante do Existir. Viver é descobrir-Se Filho da Mãe. Gratidão à Grande Mãe que nos dá origem. Gratidão a todas as mães que criam, em cada momento, a Vida, no Ventre, no Coração e no Espírito, conforme as necessidades de cada um. Gildo Fonseca.
sábado, 11 de maio de 2019
Em média, os indivíduos de QI alto caem no sono à 1h44. Essa é a conclusão de um estudo da Universidade de Londres. Segundo os cientistas, ficar acordado até tarde é um sinal de curiosidade e vitalidade intelectual.
"Os inteligentes dormem mais tarde" (sempre mais tarde que os outros) é uma frase de profundo significado.
"Os inteligentes dormem mais tarde" (sempre mais tarde que os outros) é uma frase de profundo significado.
sexta-feira, 10 de maio de 2019
quarta-feira, 8 de maio de 2019
Drummond fala daquilo que cada um de nós carece na cidade excessivamente iluminada: certa penumbra. Sabemos que o impossível de suportar, com Lacan, é o real, para o qual não existe significação. A penumbra é aquilo que tenta contornar o real, aquilo que ao mesmo tempo é borda, margem e litoral. Luz e sombra, o território enigmático entre palavras e imagens. O gesto entre a noite e o dia, o sonho, o silêncio, o ruído, aquilo que incomoda, desarticula, a pulsão, o vazio, o nada que mora dentro das coisas, o lusco- fusco do desejo.
Bia Dias
terça-feira, 7 de maio de 2019
Freud, sobre a transitoriedade...
(Freud em "Transitoriedade", 1916.)
Escolhas, perdas e ganhos...
Só existe uma vida: a sua. Tudo mais, você cria e nomina, estabelece um vínculo de amor e/ou ódio, se relaciona pela dor ou pela inteligencia. Tudo mais são escolhas. E toda escolha só traz uma certeza: a de que se perde o não escolhido.
Aglair Grein - psicanalista
segunda-feira, 6 de maio de 2019
Ato gratuito, Lispector
"Muitas vezes o que me salvou foi improvisar um ato gratuito. Ato gratuito, se tem causas, são desconhecidas. E se tem consequências, são imprevisíveis.
O ato gratuito é o oposto da luta pela vida e na vida. Ele é o oposto da nossa corrida pelo dinheiro, pelo trabalho, pelo amor, pelos prazeres, pelos táxis e ônibus, pela nossa vida diária enfim – que esta é toda paga, isto é, tem o seu preço."
Comp. do FB, pg. Clarice, essa desconhecida.
domingo, 5 de maio de 2019
sábado, 4 de maio de 2019
Caminhos da Floresta - Heidegger
Na floresta há caminhos que, o mais das vezes sinuosos, terminam perdendo-se, subitamente, no não-trilhado. Chamam-se caminhos de floresta. Cada um segue separado, mas na mesma floresta. Parece, muitas vezes, que um é igual ao outro. Porém, apenas parece ser assim. Lenhadores e guardas-florestais conhecem os caminhos. Sabem o que significa estar metido num caminho de floresta.
Martin Heidegger "Caminhos de Floresta".
Foto: Martin Heidegger caminhando pela Floresta Negra, na pequena cidade de Meßkirch [sua cidade natal], distrito de Kaden, no interior da Alemanha.
Adorável reflexão de Rainer Maria Rilke
"Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso; é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, diante do qual não nos sentimos bastante fortes. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência. Se imaginarmos a existência do indivíduo como um quarto mais ou menos amplo, veremos que a maioria não conhece senão um canto do seu quarto, um vão de janela, uma lista por onde passeiam o tempo todo, para assim possuir certa segurança. Entretanto, quão mais humana aquela perigosa incerteza que faz os prisioneiros dos contos de Poe apalparem as formas de suas terríveis prisões e não desconhecerem os indizíveis horrores de sua moradia. Nós outros, aliás, não somos prisioneiros. Em redor de nós não há armadilhas e laços, nada que nos deva angustiar ou atormentar. Estamos colocados no meio da vida como no elemento que mais nos convém. Também, em conseqüência de uma adaptação milenar, tornamo-nos tão parecidos com ela que, graças a um feliz mimetismo, se permanecermos calados, quase não poderemos ser distinguidos de tudo que nos rodeia. Não temos motivos de desconfiar de nosso mundo, pois ele não nos é hostil. Havendo nele espantos, são os nossos; abismos, eles nos pertencem; perigos, devemos procurar amá-los. Se conseguirmos organizar a nossa vida segundo o princípio que aconselha agarrarmo-nos sempre ao difícil, o que nos parece muito estranho agora há de tornar-se o nosso bem mais familiar, mais fiel. Como esquecer os mitos antigos que se encontram no começo de cada povo: os dos dragões que num momento supremo se transformam em princesas? Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas que aguardam apenas o momento de nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo horror, em última análise, não passe de um desamparo que implora o nosso auxílio."
Rainer Maria Rilke - Cartas a um jovem poeta
Comp. do FB, pg. Marcel Oliveira
Percepções...
As cores não existem. Não será surpreendente, e talvez esmagador, que algo cuja realidade nos é apresentada tão evidente seja apenas uma aparência?
As cores só existem em relação a algum sistema nervoso, mas não no âmbito físico onde este habita.
O quadro na imagem parece mostrar duas cores diferentes, mas a realidade dessa interpretação só reside em um sistema nervoso; ou seja, a existência dessas duas cores só depende da maneira como um sistema nervoso as percebe, não é possível tais duas cores. Não residem "no quadro" mas sim "no observador".
Se você cobre a linha preta do centro e observa com cuidado, quantas cores são percebidas agora?
Este exemplo, talvez trivial, oferece a oportunidade para entender uma premissa do pensamento crítico: a mais frequente causa de ilusão é o desconhecimento de si mesmo.
Compartilhado do FB, pg. Sociedade de Filosofia Aplicada
As cores só existem em relação a algum sistema nervoso, mas não no âmbito físico onde este habita.
O quadro na imagem parece mostrar duas cores diferentes, mas a realidade dessa interpretação só reside em um sistema nervoso; ou seja, a existência dessas duas cores só depende da maneira como um sistema nervoso as percebe, não é possível tais duas cores. Não residem "no quadro" mas sim "no observador".
Se você cobre a linha preta do centro e observa com cuidado, quantas cores são percebidas agora?
Este exemplo, talvez trivial, oferece a oportunidade para entender uma premissa do pensamento crítico: a mais frequente causa de ilusão é o desconhecimento de si mesmo.
Compartilhado do FB, pg. Sociedade de Filosofia Aplicada
quinta-feira, 2 de maio de 2019
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