sábado, 10 de abril de 2021

Texto longo que vale a pena, um doce deleite de conteúdo maravilhoso.

 

CARTA A UMA JOVEM POETA

(Hélio Pellegrino)

 

"O homem é um deus quando sonha e um mendigo quando pensa" Hölderlin

 

 No princípio é o sonho. E, depois dele - mas implicando-o, necessariamente -, é o contato, o contraste e o confronto com a estranheza das coisas. O movimento humano se faz da fantasia para a concretude do mundo. Temos que perder o macio inimaginável do sonho, sua diáfana gentileza de pés de lã, para ancorar no concreto. Temos de saltar de para quedas, na direção da realidade. Torna-se indispensável, nesta hora, um aparelho minimamente capaz de amortecer o choque contra a terra: tranco fundador. É, porém, ilusório supor que tal passagem possa processar-se sem ruptura - e sem vertigem. Machado de Assis, do alto de sua ironia, garante que é melhor cair das nuvens do que de um terceiro andar. Não estou seguro de que este aforisma possa adequar-se, com propriedade, ao tema que examinamos. Os sonhos não são nuvens, mas a primeira pátria do homem. Cair deles é - literalmente - perder o paraíso, vicissitude com certeza mais dolorosa do que partir uma perna, após a queda de um terceiro pavimento.

O poeta, o ficcionista dão o salto o sonho para o signo compartilhado. Existe, fora de dúvida, um sofrimento na agonia da criação artística, na medida em que ela é um parto - e um nascimento. Pulamos do avião, abandonando o grande bojo narcísico pela aventura de recortar em palavras, imagens e metáforas aquilo que é nosso mistério original. Não obstante, na dor universal desse processo de objetivação, por cujo intermédio o ser humano se aventura, para conhecer-se, o artista fica com a melhor parte. Ele consegue construir um sonho - ou um vôo - dirigido, cujo destino se consuma na obra de arte. O artista conquista e preserva, portanto, sua condição de fazendeiro do ar, permanecendo no território da semiótica - lugar onde o humano se embriaga da insustentável leveza do ser.

As coisas, contudo, se tornam mais torturadas - e tortuosas - quando se trabalha a própria matéria da vida, na tentativa de fazer dela um sonho dirigido. O concreto, fora de nós, é transcendente e, por isto mesmo, terrível. Para segurá-lo - e domá-lo - é preciso abrir a guarda ou, mais precisamente, a brecha por onde a morte entra. O real é o mysterium tremendum, brasa viva que nos queima as mãos. O artista, com seu uniforme de amianto, converte as grandes queimadas da montanha em florestas de símbolos que ardem. As palavras promovem, com eficácia, a encantação do mundo. Elas nos ajudam a elucidar o real na medida em que, por afastar-nos dele, nos permite conhecê-lo. A linguagem, em última instância, tece os fios da pertinência ao cosmo. Ela é mediação, acolchoado de presenças ausentes, gentileza do Logos que nos poupa ao grande espanto. Já os místicos, desmesurados essenciais, se aplicam com indormida paixão à tarefa de encarar, no olho, a radiância do real. Eles invocam e convocam, na solidão da noite, o vazio - abolição da linguagem -, para albergar, no centro do vórtice espantoso, a presença inimaginavelmente esplêndida do real - diadema do poder de Deus.

O artista, na sua aventura criadora, não chega a tanto. Ele é mais modesto, enfrenta - sim - o real, mas simbolizado, mediado pelo signo. In hoc signo vinces: com este signo vencerás. O artista se encomenda aos poderes da linguagem, que aponta para o real, ao mesmo tempo que o oculta. O real é o impossível - diz Lacan numa estocada de mestre. Ele é silêncio, êxtase impronunciável, fornalha ardente da paixão de Deus, aterradora e esmagadora. O artista, espécie de santo de segunda mão, fica rasante à carnadura do real, aflorando-o sem deflorá-lo, A partir da proximidade ao coração selvagem da vida, transportado de amoroso espanto, ergue vôo, através da linguagem, no sentido de anunciar, comemorar - e elucidar - a suprema dignidade do real.

O artista, pela palavra, dá notícia da realidade, fala de sua presença, representa-a e, com isto, empalidece - ou amortece - sua desocultação. O místico, ao contrário, pela brecha escancarada e vazia de sua liberdade, abre lugar ao relâmpago do ser, não corroído pela função simbolizadora da linguagem. A palavra é sempre, por um lado, defesa contra o real, defesa legítica - ou legítima defesa. Ela nos permite contemplar as explosões nucleares do Sol, mas com óculos escuros. Quem quiser não usá-los, nesta emergência, corre o risco de ficar cego. Foi, aliás, o que aconteceu a São Paulo, no caminho de Damasco. Ele ficou siderado e fulgurado pela luz da revelação do Real e, perdendo a visão, caiu - literalmente - do cavalo.

Lacan, sucessor da grandeza de Freud, desbravou tais questões com inigualável densidade. Ele nos mostra que, através da função simbolizadora, somos salvos da psicose - e da possibilidade do desastre psíquico. Nos casos de neurose, por exemplo, existe um relacionamento, no inconsciente, de conteúdos mentais já simbolizados ou representados. O neurótico embora possa assustar-se e, até mesmo, aterrorizar-se com seus sonhos, tem sempre o recurso de acordar deles abrindo os olhos, seja literalmente, seja de maneira metafórica, através de sua elucidação interpretativa. Os sonhos são sempre estruturados como linguagem. Eles representam o desejo inconsciente e, na pior das hipóteses, vão surgur à consciência como sintomas.

No caso das psicoses, o problema é estruturalmente diverso. O psicótico tem áreas de sua experiência psíquica que ele não simbolizou, nem recalcou, mas foracluiu, segundo a terminologia lacaniana. O recalque implica uma prévia atividade simbolizadora. Quando esta não existe, o material rejeitado aparece à consciência sob a forma real - não simbólica. A psicose, portanto, é uma impossibilidade de sonhar. Quem canta, seus males espanta - diz o velho brocardo. O sonho é, a seu modo, uma espécie de canção tecida de imagens, que nos salva do excesso de realidade. O psicótico, sem poder onírico, é soterrado por esse excesso e, sob seus escombros, carece de canto, sucumbe ao peso dos próprios males.

O artista - mestre no sonhar e no dizer - escapa esse duro infortúnio. Ele sonha e diz o seu sonho e, nesta medida, ao conferir-lhe o cânon apolíneo da beleza domada, conquista-o, sublima-o, resolve-o. O artista sonha de novo o seu sonho, quando o exprime, e, assim, consegue transformá-lo em canto geral. A arte é sonho dirigido, ofertado à comunhão dos homens, na medida em que paga imposto da palavra para ingressar no circuito do intercâmbio social. O artista, ao modelar o seu sonho, socializa-o, insere-o no mundo, rompe sua abastança autárquica - e narcísica. Arte é sonho compartilhado, comunicado, dialógico. Não resta dúvida , porém, que o artista, ao transpor seu sonho para a linguagem de todos, sofre aí o doloroso impacto da constrição a que o sujeita a ordem do simbólico. As palavras - e, de resto, quaisquer símbolos - são um código e uma álgebra. Elas operam a partir das leis do discurso, através de signos que se põem no lugar das coisas, sem presença delas. Toda arte, portanto, é tingida de ausência, e fala sempre de uma pátria perdida. Toda arte é exílio: canção do exílio. Os poetas - Gonçalves Dias, Baudelaire, Manuel Bandeira - não me deixam mentir.

Compartilhado do FB, pg. de Marcel Oliveira em 2013

"Não há luz que brilhe mais cedo que a de nossa janela. Costumo iniciar o dia organizando-o e tornando-o suportável para mim, e é possível que algumas vezes tenha feito isso de maneira demasiado formal e principesca."

Nietzsche em Gaia Ciência.

"Se me explico, me implico: não posso a mim mesmo interpretar."

Nietzsche, in prelúdio de A Gaia Ciência

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Tykhe - Deusa da Sorte. Deusa da Fortuna

Nos antigos cultos gregos, Tykhe ou Tique era a divindade responsável pela sorte de uma cidade. Considerada como uma das deusas do destino. Sua equivalente na mitologia romana era a Fortuna - a boa sorte.

Às vezes representada segurando um leme, foi concebida como a divindade que guiava e conduzia os assuntos do mundo. Sempre com os olhos vendados, Tykhe não fazia qualquer distinção entre as pessoas. Assim a boa ou má sorte não dependia do merecimento, mas de quem procurava estar sempre ao seu lado.
 
Era considerada como protetora, mas também como aquela que poderia punir a soberba de uma cidade, sendo relacionada com os reveses inexplicáveis que aconteciam. A eficácia de seu caprichoso poder alcançou respeitabilidade até mesmo nos círculos filosóficos da época, embora entre os poetas fosse insultada por sua ação nas mudanças imprevisíveis da fortuna.
 
Interessante é que na peça de Sófocles sobre Édipo, quando perguntam em qual deidade ele acredita, Édipo responde que Tique, naquela época sinônimo de acaso, ou acaso divino.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Além disso, apesar das coisas impressionantes de que os humanos são capazes de fazer, nós continuamos sem saber ao certo quais são nossos objetivos e, ao que parece, estamos insatisfeitos como sempre. Avançamos de canoas e galés a navios a vapor e naves espaciais –mas ninguém sabe para onde estamos indo. Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder. O que é ainda pior, os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses por mérito próprio, contando apenas com as leis da física para nos fazer companhia, não prestamos contas a ninguém. Em consequência, estamos destruindo os outros animais e o ecossistema à nossa volta, visando a não muito mais do que nosso próprio conforto e divertimento, mas jamais encontrando satisfação. Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?

Yuval Noah Harari, historiador da Univ. de Jerusalém

“Estamos suspensos” na angústia. Melhor dito: a angústia nos suspende porque ela põe em fuga o ente em sua totalidade. Nisto consiste o fato de nós próprios – os homens que somos – refugiarmo-nos no seio dos entes. É por isso que, em última análise, não sou “eu” ou não és “tu” que te sentes estranho. Mas a gente se sente assim. Somente continua presente o puro ser-aí no estremecimento deste estar suspenso onde nada há em que apoiar-se.

Heidegger em Que é metafísica.

domingo, 4 de abril de 2021

“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.” Clarice Lispector.    Compartilhado de Marcel Oliveira.

Mas eu, quem sou? Minha unidade não vem de nenhum princípio, de nenhum sentimento ao qual eu subordinaria tudo: ela só se faz em mim mesma. Não consigo me definir nem me classificar: meu gosto pela nitidez se acomoda pouco disso, no entanto, odeio rótulos. Não, verdadeiramente; o que eu amo acima de tudo, não é a fé ardente e os grandes atos simples que me comovem no entanto, com um respeito admirativo; são os impulsos quebrados, as buscas, os desejos; são as ideias acima de tudo, é inteligência e crítica, cansaços, derrotas. São os seres que não podem se deixar enganar e que se debatem para viver apesar da sua lucidez.
 
Simone de Beauvoir, no Cadernos de Juventude.

Sossega coração...

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
 Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
 Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
 
Fernando Pessoa

sábado, 3 de abril de 2021

NO LIMBO DOS INTERSTÍCIOS

Entre uma coisa e outra que nos acontece, que nos envolve, quem somos nós?

A intensidade dos apelos das fantasmagorias materiais, emocionais e espirituais não respondem, não saciam pois todas não tem essência própria, são múltiplos polos de um plano onde vagamos em pendulares extremidades. É no espaço vazio entre esses extremos que a vida deveria acontecer. Mas será que acontece? O que acontece são os espasmos reflexivos desses contrastes, vitrais compostos de percepções lastreadas em coisas ou estados já preexistentes, aculturados pela nossa consciência, que dão "base" e  sustentação para os voos de nossas quimeras. Vive-se daquilo que já é, que já existe e que muda apenas em formatação, formulação, interpretação e manifestação, seja de qual polo venha, seja da agregação do que é conhecido ou de todo incriado desconhecido com seu banquete de possibilidades.

No labirinto obscuro do incriado tateamos com mãos aculturadas por passados de pretensos entendimentos.

A relatividade é absoluta. Qualquer tela a ser pintada, qualquer cenário a ser desenhado compõe-se de elementos (tijolos) de tudo o que já é. Todo novo, toda pretensa criação, é só rearranjo de partes que são, a cada percepção, remanejadas em novas formas e expressões mas tudo composto pela mesmice do barro a criar e desmanchar, sucessivamente, novas expressões.

Toda consciência da finitude é massacrante.

Todo barro é semente de escultura inconscientemente aculturada.

Aceitar o que se nos apresenta é enredar-se, enquadrar-se, aprisionar-se a entendimentos, percepções, necessidades, afetivas, materiais ou espirituais. Entre tudo o que existe e tudo o que não existe, "vivemos", seja lá o que isso possa significar. Somos escravos dos dois. Me recuso, me insubordino frente ao enquadramento em que minha alma foi atrelada. Qualquer dos dois caminhos é apenas trânsito, impermanência, volatilidade, específica para um determinado momento, para uma determinada percepção, interpretação ou sensação.

Sim, interagimos com tudo e com todos, isso é inexorável. Bebemos e comemos de realidades, pretensamente sanas ou insanas, de acordo com os moldes e procustos de cada um, mas tudo já nos foi dado. É como um parque onde todos os brinquedos já foram experimentados, não satisfazem mais, não tem razão de ser.

É preciso saber o porquê do “parque”. Qual a razão da sua existência.

O que angustia é que a finitude escancarada do nosso entendimento não comporta a infinitude, a totalidade do absoluto, da transcendência, pois por mais que se tente alcançar a resposta do Absoluto, do Desconhecido, ele sempre estará um passo à frente. O rio não comporta o Mar.

O que me mata é viver no limbo dos interstícios, entre as bordas, nos tormentos  dos momentos e seus movimentos, entre os contrastes que dão o aparente tom e dom das coisas. Se estivermos em alguma coisa, coisa alguma seremos, mesmo que essa "coisa" seja a tentativa do próprio entendimento.

Como dizia nossa amada Clarice, “viver não dói, saber que se vive é que dói”.

Gildo Fonseca 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

“Deixai toda a esperança, ó vós que entrais”.

Dante em A Divina Comédia.

Transgredir o imponderável é tentar nascer de novo, sempre. Gildo Fonseca.

A força que mata é uma forma sumária, grosseira, de força. Quanto mais variada em seus processos, tanto quanto mais surpreendente em seus efeitos é a força, a que não mata; isto é, a que não mata ainda. Vai seguramente matar, ou vai matar, talvez, ou então está apenas suspensa sobre o ser que pode matar a qualquer momento; seja como for, ela transforma o homem em pedra. Do poder de transformar um homem em coisa fazendo-o morrer procede um outro poder – prodigioso sob uma outra forma –, o de transformar em coisa um homem que continua vivo. Está vivo, tem uma alma; no entanto, é uma coisa. Ser estranho: uma coisa que tem uma alma; estado estranho para a alma. Quem dirá quanto custa, a cada momento, conformar-se, torcer-se, dobrar-se sobre si mesmo? A alma não foi feita para viver numa coisa; quando é constrangida, tudo nela padece de violência. Simone Weil.

Realismo existencialista impactante

Percebo, afundando, que a única verdade do homem é ser uma súplica sem resposta.   George Bataille

Benedito Nunes sobre o existencialismo em Lispector

O significado da náusea, mais transtornante do que a angústia, não é a simples descoberta da existência, como irredutível, absoluta. E, também, a descoberta de que esse fato é contingente, totalmente gratuito, reduzindo-se ao Absurdo, que nenhuma razão, nenhum fundamento pode eliminar. A consciência, embebida no Absurdo, descobre-se supérflua, irrelevante. Sua liberdade paralisada apenas esboça, como nas emoções violentas, uma recusa, uma reação de fuga, que então se manifesta pelo desejo de vomitar: náusea. 

Benedito Nunes